Assédio na Universidade

Impulsionada por alguns desabafos da Liliana e aproveitando o facto do blogue Engenharia Portugal ter como público-alvo Estudantes de Engenharia e Engenheiros Civis vou relatar algo que me aconteceu há uns anos atrás:

Era eu ainda aluna de Engenharia Civil numa faculdade da zona de Lisboa. No meio de muito spam que recebia, surgiu um e-mail de um professor: “Cara aluna, gostaria que viesse falar comigo ao meu gabinete. Beijinho”. Confesso que estranhei aquele “ beijinho” do final. Mas talvez por ser nova na universidade não estava perfeitamenteconsciente do tipo de tratamento entre professores e alunos. E lá fui eu feita parva ver o que ele queria (com a pulga atrás da orelha).

Mal entro, manda-me fechar a porta. Depois, declara-se! Disse que estava apaixonado por mim, que não aguentava mais os olhinhos que lhe fazia (ou supostamente fazia), etc… A minha primeira reacção foi dar-lhe um estalo. Mas por respeito, fiquei a ouvir o que ele me estava a dizer e obviamente que nem lhe dei palha! Só me apetecia meter num buraco.

Quando ele começou a ver que não ia conseguir nada, passa para o ataque: “Sabe como funcionam as coisas aqui: um 10 tanto pode ser 15 como 7!”. Confesso que fiquei um bocado boquiaberta com aquela conversa! Mas eu não sou subornável. Eu ignorei-o e mal tive oportunidade saí do gabinete dele. Nunca mais tive coragem de o olhar na cara desse estupor :s Ainda pensei em fazer queixa, mas não me quis expor.

Moral da história: em 5 anos apenas reprovei à disciplina de que este professor era regente. Só a consegui fazer à terceira tentativa, sendo apenas aprovada precisamente no ano em que este professor não era o regente! Coincidência? Talvez. Foi o factor psicológico que me fez reprovar? Nunca saberei. Felizmente foi no início do curso. Caso contrário podia-me impedir de concluir o curso nos 5 anos.

Será que isto era/é o pão-nosso de cada dia?! Ou foi apenas um caso isolado? Mesmo que eu quisesse alguma coisa com ele seria ético?

(Guest-Post de leitora devidamente identificada)



3 comments

  1. Liliana diz:

    Antes de mais, obrigado pelo seu testemunho e pela coragem em partilhá-lo.

    Não é um assunto fácil de abordar, uma vez que há aquele conceito “formatado” que um homem só tem esse tipo de comportamento, quando a mulher lhe dá “sinais” para que avance nesse sentido.

    No seu caso, com o seu professor e no meu caso, com o meu ex patrão, jamais passou pela nossa imaginação, ideia, intenção ou quer que seja, que os “sujeitos” tivessem essas ideias.

    O problema em lidar com isso, e por mim falo, é duvidar de nós mesmas, saber se em algum momento, involuntariamente, induzimos a pessoa a formular essa ideia.

    É difícil consciencializar que não controlamos os pensamentos de outras pessoa, e sobretudo, há imensa gente mal formada e sem carácter.

    Depois vem a reacção do não cedermos às “investidas” que maioritariamente acabam por nos prejudicar na nossa vida (já não basta o pesadelo diário de ter que conviver com a situação e a pessoa).

    Só lhe custou o primeiro impacto da primeira situação… As seguintes, porque vai-se aperceber de mais, já terá mais “jogo de cintura” e uma maior tranquilidade mental para gerir isso. Mas conte sempre com represálias.

    Acredito que esta situação não é só no sentido “homem chefe – mulher subordinada”. Também deve acontecer com “ mulher chefe – homem subordinado”. Seja em que vertente for, é sempre uma situação delicada quando um dos lados não deseja.

    Coragem a todos e todas, independentemente das opções que façam…

    • De facto o que aconteceu é grave. Não acho normal um professor fazer um convite desses! Nem acho normal um professor ameaçar com isso das notas.

      Quero acreditar que reprovou apenas porque não tinha nota para passar e não por qualquer represália desse professor. Senão estamos muito mal e vivemos numa mentira em que os professores dão as notas por amizade ou inimizade.

      Eu pessoalmente considero muito pouco ético um professor relacionar-se com uma aluna. Mas é apenas uma opinião que vale o que vale.

  2. Não conheço factos em concreto mas na UMinho rondavam rumores de situações idênticas e até o inverso. Também se constava de alunas que aliciava/seduziam regentes para passar, outros casos houve em que os ditos regentes assumiram relações pessoais mal as alunas acabaram o curso. Muito mau mesmo qualquer uma das situações. O curso de ética e deontologia que nos obrigam a fazer na Ordem não chegou aos principais destinatários parece-me.

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